Eu lírico, daltônico

“Nossa! Sério que você é daltônico?! Que cor é essa? (Sujeito aponta minha camiseta) E essa? (Aponta a dele) E essa aqui? (Aponta qualquer outra coisa colorida). Você não enxerga as cores? Me explica! Sempre quis saber como é ser daltônico!” Isso já deve ter acontecido umas 1.500 vezes comigo e provavelmente vai acontecer mais algumas milhares de vezes.

Em época de Copa, por mais que não fizesse sentido algum, eu tive certeza de ter feito alguns layouts amarelo e marrom, sorte a minha ter sido apadrinhado pelo grande mestre Fernando Mesquita que me ensinou a compor cores através da quadricromia (CMYK, escala que me permite saber a porcentagem de Ciano, Magenta, Amarelo e Preto das quais derivam o resto das cores), meu guia para esses momentos esdrúxulos. Esse “defeito” não muda muito a minha vida, a “pior consequência” é enquanto dirijo, não ultrapassar o sinal amarelo (que vamos combinar é bem parecido com o vermelho) de noite se eu não vir a mudança de cor, big deal.

O teste mais popular é esse abaixo (confesso que não sei se existe outro também).

Se você não enxerga o número 2 (eu meio que duvido que tenha algum número nisso) formado pela nuance entre as cores, bem-vindo ao clube, você tem o potencial de virar piada nas rodas de amigos. Mas cá entre nós, ser daltônico pode ter seu charme se não for do tipo que te faz sair com uma camiseta rosa choque, achando que é azul marinho. “E aí gata, seus olhos vermelhos são lindos, eles me lembram a bandeira do Japão.”

Uma breve e engraçadinha sinopse do que é ter um daltonismo light (são vários tipos) que serve de gancho para contar sobre um projeto (que alguns já devem ter visto) simples e genial. Há algum tempo me mandaram um projeto de mestrado bem bacana do designer Miguel Neiva, chamado ColorADD que transforma a visualização das cores em combinações de símbolos gráficos. Ele discrimina cada cor primária (amarelo, vermelho e azul) com um símbolo gráfico, a partir da mistura dessas 3 cores obtém-se todas as outras cores, que são ilustradas através da combinação dos símbolos gráficos.

Você, daltônico, não consegue diferenciar um certo vermelho de um marrom, mas vê claramente a diferença entre um triângulo e dois triângulos com um risco ao meio. Um projeto genial pela simplicidade no entendimento e na implementação, o que não quer dizer que é fácil de se chegar à essa concepção. Um bom trabalho de comunicação nada mais é do que criar ou encurtar caminhos para que uma mensagem seja entendida e esse projeto faz os dois com primazia, escolhe 3 coisas que sempre existiram (daltônicos, cores e símbolos gráficos) e coloca numa fórmula quase matemática:

Situação:
• Daltônico não diferencia Cores
• Daltônico diferencia Símbolos gráficos

Se:
• Símbolos gráficos = cores

Nesse caso:
• Daltônico diferencia Cores

Confesso que escondia meu daltonismo no dia-a-dia de agência por ser diretor de arte, agora já não tem mais por onde, mesmo porque, segundo o Dr. Google eu não posso exercer apenas as seguintes profissões: piloto de avião, controlador de voo, geógrafo e fotógrafo (que o diga meu Instagram monocromático – @ikeya). E vamos combinar também que fazer uma camisa da seleção marrom e amarela é pensar fora da caixa, sair da zona de conforto, surpreendedor, inovador e muitos outros jargões que achamos cool.

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