A superfície da informação

Primavera árabe. Revolta no Oriente Médio. Jovens lutando contra ditadores há anos no poder. E tudo isso por causa do Twitter, Facebook e redes sociais locais. Pessoas se mobilizando em torno de um bem. Postagens de acontecimentos em tempo real e informações de pessoas comuns para pessoas comuns. Sério? Você acredita nisso? Eu não.

Eu acredito que muitos residentes obtiveram mais informações sobre o que estava rolando em praças e protestos e assim se juntavam nessa onda. Mas não que se o Twitter não existisse isso teria sido tão diferente, colocando a rede como o pedestal transformador de governos ditatoriais.

Muito dessa esperança digital acredito que veio na época da censura no Irã. Lembra quando todos que eram contra a censura no Irã mudavam o avatar da rede social para uma foto com um fundo verde? Então, na real a única fonte de informação sobre o que acontecia no país naquela época, era através do conteúdo divulgado por quem estava lá e conseguia uma brecha pra subir um vídeo, escrever um relato ou subir uma foto. Ok, pessoas se juntaram através DE e não POR redes sociais. Twitter era um meio, não a causa em si.

Esse grande exemplo mundial é pra ilustrar enganos que acontecem mais perto da gente (perto daqueles que usam Facebook pelo menos). Uma conta de bar com um erro de cálculo, um objeto perdido, cachorros maltratados, gatos esfolados, juventude revolucionária, usuários de maconha, policiais, salários de deputados e corrupção ativa, noticias sobre o Brasil estar em uma posição em algum ranking feito por algum economista que nunca conheceu a feirinha da praça Benedito Calixto.

Tudo isso, eu digo, TUDÃO está sendo recebido como uma verdade incontestável, tornando aquilo que está sendo lido como fato real. Independente da imagem ou texto compartilhado estar correto ou não, o problema é que as pessoas esqueceram (ou nunca souberam) de duvidar da informação que lhes é passada pelo fato de que um amigo que conheço postou aquilo. Isso torna os fatos superficiais em absolutos.

As conseqüências são opiniões e manifestações sem fundamento, reações no dia a dia replicando essa falsa verdade e assim tornando as pessoas mais burras ao praticar falso conteúdo. Sabe quando acredito nas ferramentas online? Em casos de pessoas desaparecidas. Ai sim acredito no poder de redes sociais.

Não estou dizendo que não se deve falar sobre assuntos de racismo ou enfermeiras que matam animais e salários de deputados, só que agindo assim você volta à idade das trevas onde querem linchar pessoas e colocá-las na fogueira e servir de aperitivo no próximo natal.

Não seria melhor lutar por melhorias do seu cotidiano ao invés de xingar muito no Twitter? Por realmente se esforçar em um projeto e mudar os salários de políticos já que isso te incomoda tanto? De que adianta ficar bravo com a corrupção se o seu protesto político é votar no Tiririca? – “Ah! Eles vão ver! Vou votar no Tiririca pra ele ficar chamando os deputados de abestado o dia inteiro.” – Vai, sai na rua, faz alguma coisa de útil, busque a veracidade dessas informações mas não baseado em perfis do Twitter.

Eu tenho medo se as pessoas realmente fossem capazes de fazer tudo aquilo que elas falam em protestos de posts indignados em redes sociais. Seria uma anarquia de olho por olho. Vivemos uma fase beta, não só do meio online, mas da história do nosso pais, não temos certeza de absolutamente nada e o consumo está nos cegando de alguma maneira. Mas isso é assunto pro papo ir mais longe. E me responde, quando foi que ficamos mais preocupados com os tratos de cachorros do que com nossa própria vida?

É tipo assim:

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