Vender forma caráter

Preciso confessar. A Dona Bete não ficou bem naquele vestido. Calma, eu vou explicar. Vender, forma caráter, percebi isso há pouco tempo. Seja atrás de um computador, pelo telefone, numa agência ou num departamento de marketing e até sendo carismático numa loja de roupas. Aliás, seja roupa, sapato, cadernos, imóveis, link patrocinado, comida ou um lugar no céu. Este último convenhamos já demonstra bastante o caráter da pessoa que o vende.

Clichês a parte que vêm a seguir, vindo de uma família árabe, escuto sobre vendas desde pequeno, e sempre fui incentivado a trabalhar. – primeiro ponto de uma formação de caráter – Lojinhas na 25, produtos diversos, matéria prima, tecido, eram alguns dos negócios que escutava dos meus familiares, cada um no seu mercado e sempre trocando idéias sobre como melhorar e vender mais – outro ponto, o caráter colaborativo agrega idéias – e “Don Adib”, assim que eu chamo o meu “Poderoso Avozão”, sempre me encorajou a trabalhar o quanto antes. Entre um trabalho e outro, tive meu primeiro emprego sério, com grande responsabilidade. Um start up de um restaurante. Como um moleque de 20 anos iria comandar pessoas, muitas delas mais velhas que ele próprio, e trazer lucro para os negócios? Detalhe: sem liberdade para inovar na comunicação, coisa que ele melhor sabia fazer naquela época.

E tentando responder a essa pergunta, foi assim que comecei no Espaço Árabe, vendendo esfihas, quibes, salgados e doces. Mas eu vendia no mesmo lugar em que eu estudava. Pessoas não me conheciam como Lucas, o colega de classe, mas sim como “o cara alto que vende esfiha”. Ai você acaba aprendendo mais sobre as pessoas do que seu negócio. Na verdade, o que melhor aprendi sobre um negócio é que você não vende o seu produto, e sim a experiência dele. Ok, vender um salgado numa faculdade pode não parecer uma belíssima experiência, mas é ai que você se destaca, as pequenas atitudes que tem com as pessoas, acabam tornando seu negócio um momento, inclusive pra aprender que servir aos outros, é uma experiência própria.

2 anos depois com mais alguns bolsos cheios na vestimenta do caráter, fui vender Big Macs nos EUA. Então percebi que o caráter também está não só no que se vende, mas no que se consome. Seja pela sociedade, seja pelo seu alimento, seja pelo trato que você tem com os que te servem, e estes podem ser imigrantes com história fantásticas e um caráter muito maior do que o presidente daquele país que você reside. Nessas experiências começo a me utilizar dos moldes desse caráter. Aqueles adjetivos que só dizem coisas boas sobre a gente, tipo o respeito, a bondade, a humildade, a atenção ao próximo… e por ai vai. Mas calma, nem só de bons adjetivos se faz um homem. Quando voltei, estagiei numa agencia como atendimento, prospect e nas horas livres, redator. Por ser prospect, tinha que vender uma agência, vender alguém que vende. Puts, crescer e amadurecer só complicam as coisas – nunca disseram que formar caráter seria fácil – e após 6 meses descobri o Planejamento. Queria arrumar um emprego nessa área. Era hora de vender o meu peixe. E foi assim que consegui meu estágio na Loducca, falando pro Diretor quem eu era e que queria muito trabalhar com aquela equipe.

Entre trabalhos, aprendizados e slides de PowerPoint depois cheguei ao meu projeto pessoal, que é vender camisetas online. Simples assim. Então aproveitei o mês que estava desempregado para conhecer sobre o mercado, sobre tecidos e vender roupas. Essa pra mim, até hoje, foi prova de uma virtude de um vendedor. Lembra quando eu falei que nem só de bons adjetivos se faz um homem? Pois bem, vender roupa na Oscar Freire forma bastante o seu caráter. E eu menti pra Dona Bete que ela ficava bem num vestido. E quando você faz uma coisa que não gosta só pra vender, é ai que seu caráter te da uma surra. Mas ele perdoa, se você aceitar essa surra. Isso significa amadurecer, crescer, evolução, chame como quiser. Mas hoje posso dizer que cada venda que eu fiz, cada experiência resultante delas, formaram o meu caráter e espero que se meu avô estivesse aqui, sentiria orgulho de mim, e do meu caráter.

 

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